Fico sabendo que a aplicação das provas do ENEM custou ao redor de 700 milhões de reais. O gasto será maior neste 2016: parte dos candidatos deverá, muito contrariados, prestar exames em dezembro porque os locais em que fariam as provas estavam ocupados por estudantes contrários à PEC241 e à MP do Ensino Médio. Note-se que, antes, sempre que houve problema com algum local de provas, as equipes estaduais buscavam outro local para realizá-las.
Leio, também, que, de novo, houve vazamento do tema da redação e de gabaritos de provas. Houve pedidos de anulação das provas, mas tudo foi contornado. Disseram que os responsáveis foram apanhados, devidamente castigados e que tudo está normal.
As universidades debatem-se, há tempo, sobre a conveniência de terem seu próprio vestibular, aceitarem o ENEM como seu exame para ingresso ou incluir os resultados do ENEM conjugados com seu vestibular próprio. Não se sabe se algum desses exames escolhe os melhores para a universidade nem quanto a sorte ou a “decoreba” artificial influem no resultado. Parece, também, que a universidade não acredita em um dos ditos escolares mais difundidos: “pode-se ensinar qualquer coisa a qualquer pessoa hígida, desde que se utilize a metodologia adequada”.
Também é uma excrescência a adoção de vários tipos de cotas para dar preferência a alguns candidatos sobre outros na competição do ingresso na universidade. Embora perfeitamente justa e democrática, necessária para o momento atual porque tende a igualar oportunidades onde não há outro meio de fazê-lo, ela é extremamente artificial e, no médio ou longo prazo, certamente prejudicará o refinamento da democracia no Brasil.
O ensino médio é totalmente prejudicado pelas provas de ENEM e de vestibular: os educadores não se preocupam mais com o que seja uma educação de qualidade ou a reduzem à verificação da percentagem de alunos que passam em tais exames. Por outro lado, como estão preocupados com o processo educacional em si mesmo, mas atormentados para treinar alunos para esses exames, falham no seu trabalho e o ensino médio desvirtua-se totalmente. É extremamente ridículo ver os alunos que cursam o ensino médio matricular-se em “cursinhos” a fim de treinar-se para exames de ingresso na universidade, com a tranquila complacência do MEC, dos conselhos de educação, dos governos e da sociedade. Nem sequer tal procedimento lhes serve de escarmento.
As autoridades educacionais – essa expressão é horrível – olham apenas a periferia da questão, isto é, não estudam conceitos teóricos nela envolvidos ou, em estudando-os, procedem com uma incoerência transamazônica que põe os estudantes a decorar versinhos para se lembrar de algumas formalidades, prontos a queimar suas apostilas assim que a prova passar. Depois que se instalou o maldito x da múltipla escolha, ninguém mais elaborou, debateu, apropriou-se de algum pensamento: professores e alunos foram obrigados a adormecer sobre alguns conhecimentos esparsos ou sobre formulações simplificadas que nem ciência são mais. A reforma do ensino médio (a tal MP) continuará o desastre ou o tornará pior, já que ela não tem nenhuma fundamentação teórica adequada às circunstâncias nacionais.
Só há dois modos dignos – porque justos e democráticos, embora não na mesma intensidade – de escolher quem vai cursar a universidade. Eles carregam em si a possibilidade de libertar inteiramente o ensino médio para que cumpra sua missão de ser um tempo extraordinário de educação para os alunos. De resto, não são excludentes e podem ser utilizados simultaneamente em realidades diferentes dentro do País, até para cursos diferentes dentro da mesma universidade. Um é crer que potencialidades demonstradas no fim do ensino médio apontam destinos; e realizar, então, com os candidatos, uma verdadeira seleção dos mais aptos e mais vocacionados para aquele determinado curso. Sem sermos totalitários a ponto de empurrarmos alunos para cursos que quiséssemos, ajudaríamos, tanto quanto possível, os alunos para a carreira futura. Seriam necessários vários instrumentos de avaliação, provavelmente com atenção especial às entrevistas. O outro é uma fé total na democracia que supõe a crença nas pessoas: todos os que concluíram o ensino médio têm os mesmos direitos e devem, portanto, ser tratados de maneira inteiramente igual. Os candidatos a entrarem na universidade naquele ano ou semestre seriam indicados por sorteio. Presumo que a Caixa Econômica Federal poderia encarregar-se disso, se o sorteio fosse como um ENEM, para todo o País. Poder-se-ia, também, regulamentar sorteios por universidade e, até, por curso. Claro que, pelo menos agora, não se deveria aceitar, parece, aqueles que tivessem curso superior para um novo sorteio, pelo menos não na universidade controlada pelo governo. O ensino médio estaria livre para perguntar-se o “para que” deve-se segui-lo. Não seria mau basear-se, para a resposta, pensando em ajudar adolescentes e jovens a educar-se, nos sete saberes de Edgar Morin, nos quatro pilares propostos pela UNESCO, em qualquer outra base firme e contemporânea, ou na própria conceituação do educar-se.
“O EDUCAR-SE consiste em:
• Definir e buscar a própria identidade, pessoal e de grupos aos quais pertença;
• Apropriar-se de instrumentos para participar na sociedade;
• Assumir um compromisso social;
• Alcançar algum tipo de transcendência;
• Estar sempre em construção”.
(GANDIN, D. e CARRILHO CRUZ, C. H. “Planejamento na Sala de Aula”. Petrópolis, Ed. Vozes).