1. Sobre a falta de Filosofia, Sociologia, Artes e Educação Física. Não é mais possível incluir, no currículo, todas as disciplinas que parecem necessárias. Chegaríamos facilmente a 100 ou mais, o que tornaria o ensino impossível. Essa busca de incluir no currículo, em forma de disciplina, tudo o que parecesse necessário à educação global da criança e do adolescente, vem do século 18 e firmou-se no 19: poucas pessoas iam ao ensino médio, ele tinha um caráter propedêutico, direcionado, e o conhecimento necessário a um adulto na sociedade era bem mais restrito. Por outro lado, as condições tecnológicas da época permitiam apenas isso: professores especialistas, falando o tempo todo e passando exercícios para que os alunos gravassem o que pudessem e sentissem qual das disciplinas atraía mais cada um deles. O mundo rodou e aprovou as especializações; mas, sobretudo a partir da segunda metade do século 20, essa visão de ensino, no que tange ao ensino médio decai e todos os pensadores lúcidos propõem uma sólida visão global da natureza e da cultura antes de uma especialização posterior necessária. As escolas de ensino básico mais atentas às novas propostas holísticas, frente à necessidade de estudar todas as disciplinas necessárias que aumentam todos os dias, partiu para uma organização escolar que pode dar a visão global sem repartir todo o conhecimento nas pequenas fatias das disciplinas: o estudo de temas, não de disciplinas, construindo um ensino baseado nos projetos de estudo.
Fazendo um ensino assim organizado serão tratados temas como o trânsito, os governos, a existência de Deus, o mundo dos animais, o meio ambiente, a política, a educação do ser humano etc. enfim todos aqueles que forem necessários, cada um deles com a profundidade adequada à idade dos estudantes e não serão necessárias disciplinas. Estes temas, sempre transdisciplinarmente tratados, devem abranger o que importar para um grupo de alunos e para uma sociedade específica, com a escola quebrando limites e abrindo horizontes. Esse procedimento abrirá perspectivas para o trabalho em temas de Sociologia, Filosofia, enfim de toda a cultura humana sem que se restrinja o conteúdo trabalhado.
Parece que a educação física deve ser contínua e, por isso, merece um tratamento especial; parece que o melhor é instituí-la na escola como ela acontece para qualquer cidadão: com esportes, com dança ou com exercícios de vários tipos. Penso que coisa parecida deve acontecer com alguma língua estrangeira: clubes de conversação e de leitura darão conta disso (como tarefa obrigatória ou facultativa) para que se aprenda de verdade e não como hoje acontece nas escolas em geral. Quanto às artes, precisamos de prática ou, pelo menos, observação do que se produziu. Mas isto não carece da continuidade da educação física. Projetos de ir a espetáculos ou a exposições, a prática de música, pintura, modelagem etc. etc. permitiriam uma formação adequada.
2. Professores podem ser escolhidos por notório saber, não em algo específico, mas notório saber em vida humana, em conhecimento e em capacidade de auxiliar alunos a planejarem seus projetos de estudo, o mais possível em grupos, e os executarem; projetos esses com temas ligados à natureza e à cultura (sociedade) e para desenvolver habilidades necessárias e para vivenciar hierarquias de valores. A universidade, na preparação dos professores, precisa fazer, além de estudos de Psicologia e de Planejamento, estudos sobre o que ajudaria jovens a integrarem-se na sociedade como cidadãos úteis e conscientes, não para aceitar tudo o que nela existe, mas para também questioná-la. Certamente seria muito útil, pelo menos nos inícios de implantação de tal sistema, que os estados, em seus setores mais próximos às escolas, como coordenadorias de ensino, e os municípios e também grupos de escolas privadas mantivessem especialistas em disciplinas que julgassem de mais importância para orientar os professores no intervalo das férias dos alunos sobre temas necessários e, até, para comparecerem a escolas, sob o chamado delas, para elucidar questões do interesse de alunos e de professores, que eles não conseguissem equacionar adequadamente.
3. Poderíamos partir do que já temos. Se, no começo, não formos capazes de tornar prática todo um tesouro que os grandes pensadores debatem hoje, poderemos partir de propostas já mais elaboradas. Cito duas que me parecem capazes de balizar a prática numa perspectiva globalizante e vital. A primeira está em Educação, um Tesouro a Descobrir, coordenado por Jacques DELORS e publicado, no Brasil, por Cortez Editora. É um relatório da UNESCO sobre a educação no século 21. O resumo dos “quatro pilares da educação” lá desenvolvidos é o que quase todos os professores são capazes de citar, mas ainda não de implantar, sobretudo porque as condições de trabalho e as regras impostas pelas autoridades educacionais e o vestibular (o ENEM também) não permitem sair daquele mundo de um conteúdo formal e já não científico em muitos momentos, completamente desconstituído pelos alunos e, até, pelos professores. Esse resumo propõe o que crianças e adolescentes deveriam aprender: Aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos. No texto da UNESCO (quarta edição), a partir da página 89 está a explicação de cada um desses pilares. A segunda, eu mesmo redigi (GANDIN, D. e CARRILHO CRUZ, C.H. “Planejamento na Sala de Aula”, Vozes, Petrópolis), a partir das ideias de muitos que hoje labutam como educadores e da ideia central de que a escola (também os pais, aliás) não deve preocupar-se em educar, mas em ajudar crianças e adolescentes a se educarem. Educar-se significa * buscar sua própria identidade; * apropriar-se de instrumentos para participar na sociedade; * desenvolver um compromisso social; * vivenciar algum tipo de transcendência; * manter-se em contínua
abertura para o crescimento. Observe-se que não será com um conjunto de disciplinas, como se quiséssemos especializar crianças e adolescentes, que vamos alcançar os resultados que essas propostas supõem. De nada adianta dizer que queremos desenvolver a cidadania, escrever isso nos planos de ensino e, em seguida, falar aos alunos as distinções entre os visigodos e os ostrogodos, as regras da crase ou, ainda, as partes da célula viva e fazê-los decorar a tabela periódica dos elementos e lições sobre os logaritmos.
4. Essa “encantadora” divisão do conteúdo escolar em Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas é completamente artificial e totalmente inútil para as escolas de hoje. Além disso, confunde os professores, faz com que eles voltem às atuais disciplinas e finjam fazer um trabalho transdisciplinar. Nas experiências brasileiras é apenas uma reunião de disciplinas para “dar” a nota em conjunto. Aliás, é preciso insistir aqui em duas observações que podem assustar num primeiro momento, mas que, analisadas com cuidado, trazem excelentes perspectivas e alternativas práticas excepcionais às escolas. * A nota é um dos grandes desastres da nossa escola; só será possível construir humanidade quando, aos poucos, formos capazes de eliminá-la de nossas escolas de educação infantil e de ensino básico; atenção: abandonar as notas, não a avaliação participativa, para verificar, constantemente, até que ponto estamos alcançando aquilo que queremos, o que nos ajuda a alcançá-lo e o que nos atrapalha para melhores resultados. É claro que ela tem uma função quando se tratar de profissionalização, em que especializações são necessárias e em que uma escola deve atestar que alguém está apto para exercer uma profissão. * Educadoras e educadores tem insistido, com boas intenções, na necessidade de interdisciplinaridade no ensino básico. É um bom movimento, mas que esconde a verdadeira luta necessária nesse nível de ensino: a transdisciplinaridade. Advogar a interdisciplinaridade aumenta a força das disciplinas que, apenas, devem conjugar-se. A transdisciplinaridade propõe que as disciplinas sejam excluídas do ensino básico, sendo benvindas na universidade ou no ensino técnico, onde a interdisciplinaridade passa a ser uma companheira admirável. Na prática, aliás, pela dificuldade de trabalhar interdisciplinarmente, quase sempre ela fica na conversa e em alguns ímpetos passageiros de alguns professores descontentes (felizmente!) com o que fazem. No ensino básico a interdisciplinaridade tornou-se, aliás, mais um sofrimento dos professores que ouvem os coordenadores falarem, sem poder praticar algo sólido nesse caminho.
5. É complicado aumentar o número de horas do ensino. Os recursos atuais apenas permitem manter aulas em um turno e mesmo assim em condições não muito boas e com grande sacrifício dos professores. O pior será que as escolas, sem possibilidades novas, irão repetir as mesmas lições que só se aguentam nas vésperas do vestibular: para passar, esquecer tudo e ganhar um presente dos pais. Claro que um plano mais amplo deveria alcançar, aos poucos, que as crianças ficassem abrigadas, alimentadas e vivendo sua vida em plenitude, sobretudo para que os pais das camadas mais pobres da população pudessem trabalhar com tranquilidade e esperança. Valerá a pena investir nisso, assim que soubermos o que fazer com as crianças durante o dia inteiro e tivermos um pouco mais de recursos. Penso que até para adolescentes, no ensino médio, poderíamos pensar nisso, pelo menos para os da classe menos privilegiada.
6. Vestibular ou ENEM para ter acesso à universidade precisa ser extinto. A modalidade democrática para ingresso na universidade tem que ser o sorteio. Isso, além de tornar igual a oportunidade de todos que tivessem concluído o ensino médio, o que é absolutamente democrático, teria uma influência extremamente benéfica no ensino básico que poderia esforçar-se para ajudar crianças e adolescentes a se educarem em vez de forçá-los a decorar, às vezes através de expedientes mnemônicos vergonhosos, muitas coisas que são absolutamente inúteis (não para especializados no tal campo do saber, mas para pessoas comuns ou de outra especialidade). Seria necessário garantir que pessoas que já tivessem um diploma de curso superior não pudessem inscrever-se no sorteio, pelo menos não em faculdades oficiais, enquanto houvesse candidatos suficientes sem qualquer diploma; mas, afora isso, nada mais será necessária e práticas do tipo “reserva de quotas” seriam extintas também.
7. Será necessário estimular cursos rápidos de profissionalização, naturalmente gratuitos, tipo Senac e Senai, para que pessoas sem possibilidade ou sem gosto de seguir o ensino médio, aprendam rápida e mais livremente um ofício que possa dar-lhes um emprego imediato. Voltar ao esquema da profissionalização da década de 70 do século passado (lei 5692) parece um retrocesso inadmissível num mundo que precisa apresentar horizontes para agora e para o futuro e não para o passado. Claro que um ensino técnico cuidadoso, para quadros intermediários nos vários campos de ação humana, são necessários quando houver falta ou quando algum ramo produtivo se desenvolver com mais rapidez: fazer tal suprimento com bons cursos no ensino médio é perfeitamente exequível, mas não nas escolas comuns de educação geral que não podem distrair-se com algo para o qual não têm equipamentos nem vocação.
8. Não é necessária uma MP para mudar o ensino. Já necessitamos de um projeto de lei que reúna o que está ficando muito disperso na regulamentação sobre a educação. Por outro lado, já desponta no horizonte, a possibilidade de que, em educação, haja uma lei que apenas determine as obrigações de municípios, estados e união, com alguns itens sobre a fiscalização nas escolas, ficando o restante, como conteúdo, avaliação, metodologia etc., sob a responsabilidade das escolas; deveria, isto sim, essa lei determinar que as escolas devessem apresentar planos plurianuais (médio prazo, para 3 ou 4 anos), planos anuais e relatórios para demostrar seu desempenho. Por supuesto, como dizem nossos irmãos das terras colonizadas pela Espanha, planos com visão de futuro, trabalhando questões importantes de nossa sociedade e de nossa vida, com base num projeto político-pedagógico e não apenas planos operacionais, de gestão.