Alguém que chegasse, de outro planeta, na terra, ficaria extremamente indignado com aquilo que fazemos em nossas escolas: perguntaria por que escolhemos quatro ou cinco disciplinas e deixamos de lado todo o restante do saber e da vida, por que reprovamos alunos, por que o professor fala sozinho, por que temos séries e livro didático. Teríamos dificuldade em nos defender. Provavelmente diríamos que a culpa é das autoridades – conselhos, ministério, secretarias – pois elas decidem tudo. O pobre do ET iria procurar as autoridades e todas lhe diriam que não é bem assim: que as escolas são inteiramente livres, que há parâmetros bem abertos, que as diretrizes são próprias para o século 21. Que o livro didático, o ensino por disciplinas, as séries, a defesa da autoridade do professor, os regulamentos, tudo é para que a escola não se perca: o mundo está muito confuso para deixar a educação a cargo dos educadores.

Posso afirmar que esta situação é resultado de uma estranha convergência entre o medo dos educadores de assumir a responsabilidade e o das autoridades de que se desorganize o ensino. Educadores não aprofundam o estudo e pensam que é melhor aceitar os resultados desastrosos do que correr o risco de parecer desobedientes; autoridades desejam ver tudo regulamentado para que não se rompa o status quo social. Novas ideias? Só as que contribuem para melhorar o desastre, como as dos professores que inventam musiquinhas ou versinhos – até algumas leves indecências – para que alunos decorem fórmulas das quais nunca saberão o significado.

A causa mais profunda é a falta de estudo sério das autoridades e dos educadores. Estes não leem porque não têm tempo, não entendem leituras mais profundas, não podem comprar livros e, nas bibliotecas, não encontram os adequados; não sei por que as autoridades não leem, mas é provável que seja porque não lhes parece necessário, pois, afinal, tudo vai bem enquanto os alunos não se revoltarem.

Necessitamos de uma profunda reflexão nacional sobre novas perspectivas para as escolas. Afinal, já dizia Einstein, que “insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Poder-se-ia programar uma atualização, para todos os educadores da escola básica e da faculdade de educação e para as autoridades, começando pela leitura e estudo de alguns livros de um conjunto indicado por especialistas. Como contribuição, listo autores de quem me lembro sem pesquisar, só como exemplo: embora eu ame Ivan Illich e Everett Reimer, contentar-me-ia com Gustavo F. G. Cirigliano; depois, Paulo Freire, Joseph Leif, Fritjof Capra, Edgar Morin, Lauro de Oliveira Lima, Ricardo Semler, Peter Senge, Fernando Hernández e Montserrat Ventura, a própria UNESCO, com seus quatro pilares. E alguém que ensine a planejar.