Um senhor foi ao médico. Encontrava-se muito fraco e sem ânimo. O médico logo lhe perguntou sobre sua alimentação.

            __ Como meia abóbora de manhã, uma no almoço e outra metade à noite.

            __ É por isto que o senhor está fraco, concluiu o médico.

            __ E o que devo fazer?

            __ A partir de agora, o senhor vai levantar à meia noite e comer outra abóbora.

            A estória visa a identificar a emoção que me traz a atual declarada intenção de aumentar a carga horária anual do ensino básico: querem melhorar a escola receitando um pouco mais daquilo que é a causa da doença.

           
           Como tudo é pensado em quantidades – vício do viés econômico – surge a grande suspeita e, como consequência, a
extraordinária saída

            Todos sabem que a escola vai mal como o paciente das abóboras. Os economistas que orientam a educação nas altas esferas não são capazes de identificar as causas, por ordem de influência. Muitas hipóteses aparecem: falta de preparo dos professores, de espaço, de equipamento, de salários dignos… Falta de gestão é o que mais aparece. 
Mas não falta tempo. Se multiplicarmos 9 anos por 800 horas anuais de aula, chegaremos ao estupendo número de 7.200 horas só no ensino fundamental. Mesmo que estas “horas” sejam períodos de 50 minutos, temos um tempo completamente suficiente para que os alunos possam se alfabetizar nas dimensões necessárias: linguística, matemática, científica, técnica, filosófica, religiosa e social. Ouso dizer que isto é possível com os professores e condições que temos hoje nas escolas.

            Mas não é possível com o conteúdo, com as obrigações do livro didático, com alunos quietos, com as notas que damos… Isto tudo trava o ensino de vários modos.

O primeiro é que limita, de modo catastrófico, o saber. Fecha os alunos em algumas disciplinas, quase proibindo-os de acessarem o imenso mar de conhecimento atual. Criar novas disciplinas inviabilizaria a escola. Inventaram, então, num verdadeiro estelionato pedagógico, os “conteúdos transversais”, mandando que os importantes saberes que eles deveriam trazer (ética, meio ambiente, sexualidade, saúde e um pouco mais) sejam trabalhados por entre as disciplinas.

O segundo, mais danoso, é que aquele conjunto destrói qualquer interesse da criança e do adolescente que não seja passar no vestibular ou de tirar boas notas porque a família exige… Costumo brincar, nas minhas palestras, convidando as pessoas (em geral professores) a ficarem, depois do trabalho, para uma aula que darei, gratuitamente, sobre uma questão gramatical. Sou licenciado em Língua Portuguesa e quase sempre proponho como conteúdo “as funções sintáticas que a palavra que pode assumir numa oração”. Por que será que ninguém fica para a minha aula?

Tudo é formal, árido, desligado da vida. Leio, em Veja de 28 de setembro de 2011, o depoimento de uma professora de Física, com 30 anos de experiência, dizendo que “não é possível ensinar bem todo o conteúdo de Física”. Mas, para que se ensinaria todo o conteúdo de Física a adolescentes?

O único currículo decente para o ensino básico será o que contemple todo o saber humano, sem disciplinas, buscando, na escola, através de jornais, vídeos, revistas, tablets, livros, filmes…, o conhecimento sobre a natureza e sobre a sociedade.