Entrevista – Gazeta – ES
Danilo Gandin, Mestre em Educação e autor de 9 livros sobre o tema
PUBLICADO NO JORNAL A GAZETA

por Claudia Feliz
cfeliz@redegazeta.com.br

Aos 73 anos, ele subverte a ordem estabelecida, pelo menos no que diz respeito à sua especialidade: a Educação. O educador Danilo Gandin é contrário ao livro didático, que segundo ele infantiliza os professores, e defende uma mudança radical na forma como as escolas vêm tratando os alunos, a partir da definição de um projeto político-pedagógico onde o autoritarismo e o conteúdo voltado para o vestibular não têm lugar. É bom que se diga, também, que Gandin é contra o vestibular, na forma como ele existe.

Gazeta – Como é essa nova escola que vocês, estudiosos, defendem?

Danilo Gandin – Os da minha linha defendem aquela onde o aluno seja tratado de uma maneira muito menos autoritária do que atualmente, mas não no sentido de deixá-lo fazer o que quer, e sim onde haja um projeto político-pedagógico do qual os alunos também participem. Isso está no pensamento, e não na prática, das escolas, hoje.

Gazeta – O que o senhor aponta de ruim nas escolas?

Danilo Gandin – O seu processo, que teve origem no século 18 e se firmou no século 19, com base em dois pontos. O primeiro: a escola deve passar para o aluno conhecimento que a humanidade construiu através da história. Ora, assim que a ciência se firma, isso passa ser uma coisa maluca, que não se aplica à atualidade. Porque se lá no século 19 havia umas 40 profissões possíveis, hoje há mais de oito mil. Segundo: a ideia era de que todo mundo passasse por todas as áreas do conhecimento para fazer uma escolha. O vestibular fica sendo o fim da escola, e esse processo tem que ter um conteúdo preestabelecido, nota, séries, um professor falando o tempo todo. A escola de hoje, por causa disso, comete um crime muito grande.

Gazeta – E qual é esse crime?

Danilo Gandin – Tudo o que importa ao cidadão fica fora do conhecimento da escola. Economia, política, direito, saúde, psicologia. sexualidade, etc. – embora haja tentativas isoladas. A escola está dominada pela Física, pela Química, pela Matemática, pela Biologia. Enquanto no século 19 20% entravam na escola, hoje todo mundo entra e, embora a escola tenha novas ideias, continua com um processo antigo, com um conteúdo para especialista.

Gazeta – Por isso, torna-se desinteressante para os jovens?

Danilo Gandin – Completamente. O aluno às vezes passa sete, oito anos na escola, e sai dela com escolaridade de quarta série.

Gazeta – O mundo mudou e a escola não percebeu?

Danilo Gandin – Exatamente. E mudou também nas ideias. A escola atual, voltada para o vestibular, serve um pouquinho para os ricos, mas não serve nada para os pobres.

Gazeta – O senhor defende o fim do vestibular?

Danilo Gandin – Sim, mas, por enquanto, defendo o sorteio entre os que terminam o ensino médio, já que as universidades não querem fazer uma avaliação aprofundada, inclusive vocacional, para uma seleção melhor. Elas querem ser seletivas e objetivas. Por isso aplicam perguntas difíceis, médias e fáceis, e usam o método de responder marcando com um x, o que se reflete na escola do ensino médio. O vestibular não consegue, realmente, selecionar os melhores. Mas o Enem está caminhando para a direção de uma verificação de habilidades e não de conhecimentos.

Gazeta – É um modelo mais próximo do ideal?

Danilo Gandin – Já é uma caminhada. Mas defendo uma mudança global na escola, que deveria construir um saber em cima da sociedade e da natureza, mas nada tão especializado. O conteúdo não tem que ser preestabelecido, o professor não tem que falar o tempo todo. É preciso que as 7.200 horas do ensino fundamental sejam usadas para aprendizagem do que interessa ao cidadão.

Gazeta – Que ferramentas a escola não pode deixar de fornecer?

Danilo Gandin – A leitura e a escrita, além de noções de Matemática – para que seja possível fazer contas.

Gazeta – Não há como fugir: hoje, muitas escolas buscam a aprovação do aluno no vestibular.

Danilo Gandin – E não dão à sociedade o resultado que ela deseja, que é de formação de pessoas autônomas, criativas, responsáveis, que desenvolvam suas habilidades, que vivenciem valores e tenham, naturalmente, conhecimentos básicos. Mas, hoje, se os filhos não estudam aquilo que os pais estudaram, eles ficam desconfiados da escola, esquecendo-se que o mundo mudou totalmente.

Gazeta – Há mesmo um saudosismo, sobre o fato de que a escola do passado era melhor.

Danilo Gandin – E ela não era melhor, mas no passado as pessoas não tinham informações como a gente tem hoje. Então a escola passava informações e elas eram absorvidas pelos alunos. Não se pensava a educação como criadora de hierarquia de valores, de habilidades, se pensava a escola como um lugar onde se aprendia alguma coisa. A educação era muito mais forte nas famílias, o mundo era homogêneo, todo mundo sabia o caminho do céu e do inferno (risos). A escola era capaz de atender a aqueles poucos alunos que entravam. Hoje, você põe todo mundo lá dentro e quer falar a mesma linguagem. Por isso não é correto dizer que a escola piorou. Na realidade, ela ficou igual, mas isso é terrível, porque não foi capaz de se repensar a partir de ideias novas. Ela ficou para trás.

Gazeta – O que nos diferencia em relação à educação dos países desenvolvidos? Como podemos dar um salto de qualidade?

Danilo Gandin – Falando de ensino básico, um país tem melhor educação porque tem mais dinheiro, e não tem mais dinheiro porque tem melhor educação. A escola sempre é uma reprodução da sociedade, com seus defeitos e virtudes. A escola precisa olhar a sociedade, e fazer um projeto pedagógico que ajude a construir o que ela – escola – vai escolher. Muitos professores dizem que querem desenvolver cidadania, respeito, responsabilidade, mas o processo, o que se faz na escola, é incoerente com essas ideias. Hoje, a escola é menos importante para o conhecimento do que a mídia, e é muito mais autoritária do que a sociedade. Ela reproduz o que é pior. Em países desenvolvidos, a cultura é repassada para a escola. Nos Estados Unidos, quase não estudam Geografia, focam bastante Matemática. Porque a sociedade é centrada em si mesma e não se interessa pelo resto do mundo.

Gazeta – Como educador, o senhor acha correto?

Danilo Gandin – Não, horrível! Insisto: a escola hoje é chamada a reproduzir a sociedade naquilo que ela escolhe reproduzir.

Gazeta – Mas o processo envolve uma sociedade onde a escola está inserida, a família, professores, alunos. E uma das grandes queixas da escola, hoje, é sobre a ausência da família.

Danilo Gandin – As famílias são assim porque nossa sociedade está perdida no seu rumo. A gente critica os políticos que roubam, mas a nossa sociedade é corrupta no seu dia a dia, nas pequenas coisas. E a escola pode fazer alguma coisa? Sim. Mas ela tem que tomar consciência disso e fazer um planejamento de forma a poder intervir nessa realidade.

Gazeta – O senhor é contrário ao livro didático. Por quê?

Danilo Gandin – Porque ele limita, infantiliza os professores. Defendo a extinção do livro didático e a criação de um programa de apoio pedagógico às escolas, oferecendo a elas jornais, revistas, vídeos. A maioria dos professores de ensino fundamental e médio, pode crer, não consegue ter um jornal, uma revista para ler. É claro que é muito mais agradável assistir na TV a um programa sobre a vida de Dom Pedro I do que ouvir a professora falar sobre isso em sala de aula, presa ao que está em um livro didático.

Gazeta – E sobre a escola de tempo integral? O que o senhor pensa?

Danilo Gandin – Para repetir os logaritmos? Reproduzir o modelo atual? Se é para fazer com que elas aprendam mais, vão perder tempo. E se for para proteger as crianças do risco das ruas, isso não é assunto educacional.

Gazeta – Mas o senhor acha que há “salvação”?

Danilo Gandin – Olha, eu acredito muito na escola. Senão, estaria aposentado e jogando bocha (risos). A escola pode ajudar a transformar a sociedade. Para mim, o momento é de semear ideias e difundi-las. Quando Galileu disse que a Terra se movia, quase queimaram ele. Não sou soberbo, mas estou convencido que as ideias que nós educadores estamos gerando agora, um dia serão aceitas de forma tranquila.
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ENTREVISTA DANILO GANDIN

Tribuna de Vitória ES 29-08-2010

“Escola não educa e não forma cidadãos”

O especialista em Planejamento Educacional condena o livro didático e diz que alunos devem escolher o que querem estudar Anna Beatriz Brito As escolas não cumprem o papel de educar e estão presas a uma grade curricular que não forma cidadãos. Esta é a avaliação do mestre em Educação e especialista em Planejamento Educacional Danilo Gandin. Para ele, a escola não oferece espaço para discussões sobre o que acontece no dia a dia de crianças e jovens. Para debater o tema, Gandin, que é do Rio Grande do Sul, dará uma palestra hoje durante o congresso Conhecer, em Aracruz.

A TRIBUNA – As escolas cumprem seu papel de educar?

DANILO GANDIN – Não. O problema é que as escolas não educam e não formam cidadãos. Elas estão muito presas a algumas matérias e se esquecem de todo o resto. Se você perguntar de Norte a Sul do País o que deve ser passado na 5ª série na disciplina de História, todo professor vai dar a mesma resposta e isso empobrece o currículo. A escola está muito pobre, dá importância a Matemática, Português, Química, Física, mas não tem nada de economia, política e direito. Hoje um jornal émais instrutivo do que uma escola.

TRIBUNA -Qual o reflexo na educação dos alunos?

DANILO GANDIN – As escolas são muito pobres e desligadas do cotidiano dos alunos. O estudante é capaz de saber como a célula se divide, mas não é capaz de pensar como cidadão, como uma pessoa culta dentro da sociedade.

TRIBUNA -E como está a relação aluno professor, na sua opinião?

DANILO GANDIN – Está trágica. Alunos não estão mais distinguindo seu papel com o dos professores. Em muitos lugares, desrespeitam e batem no professor, isso porque a escola está perdida e não sabe o que fazer. Dessa forma, os alunos resolvem fazer o que querem. O professor está perdendo seu espaço, respeito e dignidade na sala de aula.

TRIBUNA – O senhor acredita que deveriam ser estimuladas mais aulas práticas?

DANILO GANDIN – Sim, o melhor é tirar ao máximo os alunos da sala de aula, para realizarem exercícios do que vão ver mais tarde, fazendo projetos e visitas a famílias.

TRIBUNA – O senhor acredita que os livros didáticos são suficientes para a formação dos alunos?

DANILO GANDIN – Não, de modo algum. Se fosse ministro da Educação, a primeira coisa que faria seria acabar com o livro de didático. A escola deveria ter acesso a jornais, revistas, filmes,rádio, televisão, internet que têm muito mais informações interessantes.

TRIBUNA -Você acha que seria suficiente substituir o livro didático pelas informações da mídia?

DANILO GANDIN – Claro, o que o livro didático está informando hoje em dia? As coisas que nós, adultos, sabemos, não. São coisas especializadas, quando nós precisamos de conhecimento mais genérico sobre a realidade. Temos de discutir e aprender sobre o planeta, água, eleição, classe sociais, salário mínimo. Não quero que uma escola seja política, mas informadora e sobretudo debatedora das informações.

TRIBUNA – Como seria a educação no ensino médio?

DANILO GANDIN – Acho que o aluno poderia estudar aquilo que lhe agradasse mais. No ensino fundamental, o aluno precisa de conhecimentomais geral. Já no ensino médio, o estudante poderia escolher cinco temas para se aprofundar. Como o conhecimento hoje em dia é muito vasto, cada umde nós aproveita aquilo que lhe diz alguma coisa. A escola deveria ser um lugar aberto, cheio de conhecimento e um não lugar para bitolar as pessoas, como acontece hoje.

TRIBUNA – Qual o modelo que o senhor consideraria ideal para o vestibular?

DANILO GANDIN – Neste momento, o vestibular deveria ser feito por sorteio. Acredito que não existe outro meio para salvar o ensino médio, porque o vestibular que determina como ele será. A melhor alternativa seria que as faculdades fizessem exames vocacionais para escolher os alunos com mais aptidão, mas como a sociedade não aceitaria, o melhor agora é o sorteio.

TRIBUNA -O senhor avalia que os professores não precisariam mais ter formação específica?

DANILO GANDIN –Sim, não precisariam mais e nem deveriam. Não se deveria mais formar professor com especialização, mas que ajudasse uma turma de alunos a compreender e discutir essa sociedade. É uma volta no currículo, que se confirmou no século 19 mas não serve mais nos dias de hoje.

FONTE: ATRIBUNA VITÓRIA, ES, DOMINGO, 29 DE AGOSTO DE 2010 – Anna Beatriz Brito – Site: http://www.redetribuna.com.br/